terça-feira, 3 de abril de 2012

AOS QUE PREZAM A MEMÓRIA




Quando criança, a primeira imagem consciente de um presidente foi a de Ernesto Geisel, que aparecia como um deus inatingível em reportagens cosmeticamente prontas na TV Tupi (a Globo ainda não existia para nós, pois não era retransmitida). O aparelho de tv era à válvula,  em preto e branco, e tinha a tela grande. Um objeto mágico num tempo sem maiores novidades do mundo lá fora.

Pouco tempo depois, já na escola, uma criança com outras tantas (todas pobres), fui ensinado a adorar um outro ser igual ao general Geisel e também de mesma patente: João Batista de Oliveira Figueiredo, cara dura, último da Ditadura Militar (1964-1985).

Fazíamos parte do “reino” que esses senhores governavam, mas não nos sentíamos parte, exceto pelo hino nacional tocado em certos momentos, onde nos víamos inscritos de alguma forma.

Sou um dos filhos da Ditadura Militar, como todos os que nasceram em tal período. Sou filho de um tempo duro, mas de uma dureza diferente dessa de hoje, global e caótica que é. Adolescente, pude entender melhor a gaiola política de meu país e insisti em que deveríamos enfrentar o tédio e o medo e criar algo novo, outra possibilidade. Queríamos votar pra presidente, o que hoje os mais jovens não conseguem dimensionar corretamente.

Gosto de saber que sou de um tempo em que, junto de meus companheiros, fiz uma página virar e ver o povo inteiro de meu país percorrer ruas e avenidas, bandeiras nas mãos, olhos e sorrisos acesos, desejar participar diretamente. E conseguimos. Se hoje os mais “marrentos” têm o direito de falar o que pensam (inclusive contra gente como eu), devem  isso a mim a todos os milhões de brasileiros que fizeram a página virar.

Rendo aqui minha singela homenagem aos que tombaram mortos nas mãos da Ditadura Militar, gente que conheci nas tantas páginas dos livros que na juventude li, madrugada adentro, olhos ávidos, coração em fogo. Orgulho-me de ao menos sentir-me um pouco companheiro dos que ousaram conceber o Brasil libertar-se da Ditadura Militar.

Tenho desprezo pelos incultos que, desconhecendo a história e o peso das eras, falam asneiras dia e noite em relação a tudo isso. E dos que mudaram de lado, indo morrer nalguma moda, quero distância.

Tenho raiz. Tenho consciência histórica.

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