segunda-feira, 6 de agosto de 2012

SOMOS A CIDADE QUE PERDEU DE SI MESMA.


Por condicionamento cultural, somos seres urbanizados. A maioria de nós, mesmo que tenha origem na zona rural, está influenciada sobremaneira pelos valores e vivências da cidade. As nossas expectativas se dão dentro do espectro de possibilidades que a urbe fornece. E se a urbe enlouqueceu, não se pode pensar isso de sua paisagem, mas dos seres que habitam a mesma, nós todos, até os que, de corpos sarados e rostos alegres, consideram-se modelos de sanidade e de esperança.
Não é à toa a existência de tantas igrejas, desde as mais bem fundamentadas e dignas de crédito às “bodeguinhas do pastor sabido”, essas neopentecostais que compensam a ignorância e a falta de lastro com o barulho e a malandragem de seus líderes ávidos em subir na vida. O ser humano, desesperado e moído por misturas de culturas diluídas na vida urbana, pede socorro. Escravo do dinheiro e de seus ritos, longe do amor sincero e da amizade verdadeira, exilado da segurança do modelo antigo de família, a solidão lhe dói como um fogo interno, mas não de revigoramento e sim de destruição. Ele chama por Deus, já que a polícia, o SAMU, ou seja o que for podem atrasar no socorro.
Mas será que tudo é ruim na cidade? Não. A idéia de cidade guarda a idéia de encontro, de evolução da participação civilizada e digna de seres em busca do espaço comum e coletivo onde possam realizar a sua humanidade, o seu potencial, a sua alma, sem mais pedágios ou castigos que os inevitáveis. A urbe outrora concebida para a realização humana, apesar de tudo, perdeu-se dentro dessa máquina de exploração da terra e do trabalho dos pobres que precisam entregar suas horas em troca de comida e do direito de comprar uma moto ― que será objeto da cobiça de mil ladrões e mil drogados que essa mesma urbe, complexa e desigual, gera.
Já não somos mais a antiga comunidade de casas calmas e ruas calmas e vidas lentas por quintais de mamoeiros e goiabeiras com aquele galinheiro ao fundo e um cachorro pé duro amigo e fiel. Já não somos mais uma comunidade; já não compomos mais relações de fraterno amor com os nossos vizinhos, com a cidade como um todo, pois todos nós aprendemos bem a cartilha do dinheiro sobre tudo e sobre todos. Desesperados, perdidos, resta-nos a última loucura da urbe e com ela entregarmos o nosso resto de humanidade ao caos que não mais conseguimos ordenar.
Que saídas temos? Talvez, como tentativa última e nem por isso sem alegre esperança, devamos fazer o caminho de volta, parar de investir na besta de mil projetos e recordarmos os laços que outrora nos faziam membros de uma comunidade mais verdadeira e sã, menos vítima do capital, mais digna de ser. Resta-nos investir na urbe como espaço onde nem tudo precise ser por dinheiro, nem tenha pé no pior do humano que são seus (nossos) defeitos morais, nossa miséria espiritual, nossa falta de cultura de verdade, nossa covardia diante de uma escolha que é óbvia: viver ou não.
Talvez devêssemos olhar o campo e suas primevas maneiras de se viver, valorizar a terra, a flora, a fauna, mas não como negócio a se explorar sobre os outros e sim como projeto de vida onde o máximo de pessoas seja feliz não por excesso de riqueza material e sim por uma vida em paz. Talvez devêssemos lembrar do que um dia fomos e de como realmente nos sentíamos em nossa própria pele, sem precisar de salvadores e de técnicas especiais de como administar o óbvio.
Precisamos humanizar (amorizar) a nós e às nossas perspectivas tanto quanto as nossas ações. A mudança é cultural, não dependendo de termos mais objetos ou de descobrirmos fórmulas especiais ditadas por algum mago da auto-ajuda ou algum líder espiritual campeão em vendas de CDs. Precisamos resgatar em nós a comoção suficiente diante da beleza real da vida, da natureza, do funcionamento adequado das coisas, da naturalidade de uma flor ou de um trovão. Para isso não carece de se inagurar uma nova loja, nem de se implantar uma indústria, nem de se criar uma nova igreja, muito menos um novo partido. O que carecemos é de uma nova cultura de convivência com nós mesmos e com os outros. E essa nova cultura tem ensinamentos antigos e que hoje estão jogados aos cantos pela nossa pressa em mostrar no facebook todos os recalques que temos e as demais (superficiais) relações que tanto fazemos questão de levar adiante.
O tanto quanto pudermos entender que muito do que acreditamos é exatamente a causa e o combustível do que de péssimo nos acontece, mais estaremos perto de identificar o oposto e a porta de saída. A idéia de pessoas abarrotadas de dinheiro e poderosas sobre o reino inteiro da vida é irreal e perigosa. Porém, se elegermos, no mínimo, dez pontos (dez coisas) que sejam curativas do males individuais e sociais que atravessamos, estaremos propondo um novo caminho. Mas não nos iludamos com moralismos baratos e “correntes do bem” inóquas. Tampouco adentremos os tantos fundamentalimos políticos e religiosos tão admirados por pessoas que se julgam sábias e próximas da verdade máxima.

Escapemos das certezas e nos apeguemos às perguntas. Quem pergunta cria a novidade.
Fonte- O ARAIBU

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