domingo, 21 de outubro de 2012

Adeus Capistrano


Diamantino chora por Darcy

Neste momento estou sentado diante do teclado do computador tentado encontrar forças para escrever alguma coisa. Algo que possa traduzir essa dor; algo que possa traduzir uma história de 20 anos que se foi. Que bom seria se, em momentos especiais como este, pudéssemos ser perfeitos. Faria o melhor texto do mundo. Mas não somos: as palavras fogem da mente, a racionalidade desaparece.


Talvez eu poderia escrever sobre o diabetes, esse monstro silencioso e implacável que atormenta nossas vidas todos os dias e que tirou Darcy de nossa convivência neste sábado, dia 20 de outubro de 2012, aos 54 anos de idade. Mas a dor seria maior pois eu teria que lembrar de Juarez de Abreu, que nos deixou um pouco antes, aos 49 anos de idade; de Valtinho Queiroz, que nos deixou prematuramente, aos 44 anos.

A dor é grande. Todos tão jovens! Todos, meus irmãos de sentimentos, meus companheiros de luta, que participaram de momentos importantes de minha vida e da vida desta cidade. Junto com esse trio protagonizei sonhos e projetos para construir a Diamantino de todos os nossos sonhos: justa, moderna, com qualidade de vida, desenvolvida. Foram várias e intensas disputas, às vezes juntos, ás vezes em lados opostos, mas sempre com ideais comuns. A disputa política nunca nos separou ideologicamente, mesmo nos momentos mais tensos, a conversa fluía. Era um imenso prazer discutir o futuro da cidade de Diamantino: borbulhavam ideias e projetos. Perdemos, por enquanto. Perdemos porque - me desculpem meus outros companheiros de jornada -, os “bons” estão indo embora. Os “ruins” estão prevalecendo. Diamantino precisa descobrir novos “bons” e extirpar os ruins. Nossos sonhos não podem morrer! O luto é dor mas vai passar, a luta precisa continuar.

Mas meu sentimento, no entanto, não é falar do diabetes e da perda irreparável que atormenta nossos corações neste momento. Por ter sido um dos coordenadores da recente campanha eleitoral de Darcy Capistrano, vivi de perto todas as angustias de meus companheiros de comitê, no dia-a-dia dessa jornada e que dispensa maiores comentários aqui porque a cidade inteira sabe – muitos acompanhando, angustiados, o sofrimento de Darcy no leito hospitalar, outros, no entanto, comemorando nos camarotes da insensatez, da falta de moral, da falta de escrúpulos. Por isso, me sinto na obrigação de tentar acalantar as milhares de pessoas que seguiam o pensamento político de Capistrano, que acreditavam na boa índole de Capistrano, que acreditavam na pureza de seu coração.

Na quinta-feira, dia 04 de outubro, três dias antes da eleição, angustiado com a pressão dos adversários explorando de forma covarde o fato de Darcy estar internado em hospital de Cuiabá – já o haviam “matado’ umas três vezes-, me vali da ajuda de outro grande companheiro, o Zé Come-queijo (um novo “bom”), para ir a Cuiabá gravar uma mensagem de Capistrano para a reta final da campanha.

Foi maravilhoso. Darcy gravou a mensagem sem repetir o texto e falou firme, demonstrando estar em franca recuperação; sorriu e brincou quando falei que ele não precisava se preocupar para receber o diploma de prefeito, caso ainda estivesse no hospital, porque não tinha impedimento legal. “Você está louco! Eu não vou ficar todo esse tempo aqui, não!”. Ele sabia de tudo o que estava acontecendo na campanha. Recebia visitas e informações quase que diariamente. Voltamos para Diamantino, eu e o Zé, animadíssimos: Darcy nos convenceu que estava bem e que iria sair do hospital nos próximos dias. Sua mensagem percorreu as ruas da cidade em carros de som. Parecia que havíamos conseguido diminuir a pressão dos adversários e caminhávamos para a vitória no domingo.

Um plano maquiavélico, porém, estava sendo executado por nosso adversário e seus asseclas: sorrateiramente, desde o início daquela semana, um grupo de pessoas foi designado em Cuiabá e agia em cima da doença de Darcy para preparar o encerramento da campanha deles: desde segunda-feira, por várias vezes, ligaram na clinica do hospital alegando serem jornalistas que precisavam falar com Darcy Capistrano (segundo relataram funcionários do próprio hospital) mas não conseguiram sucesso. Mas também não desistiram: na quarta-feira, um dia antes de nossa visita, foram pessoalmente ao hospital com a mesma alegação – gravar uma reportagem com Darcy Capistrano - mas foram barrados na portaria.

Veio sábado à noite, véspera da eleição e vieram as notícias plantadas em sites noticiosos de Cuiabá, com base em um suposto boletim médico do hospital (que não se sabe como conseguiram ter acesso) e os panfletos jogados nas ruas de Diamantino no domingo de madrugada colocando Darcy em estado “terminal”, com uma foto de um leito hospitalar vazio e outra foto de Darcy totalmente desfigurado. Um crime covarde! Darcy estava bem disposto, alegre e sorridente na quinta-feira, diante de mim e do Zé.

Terminada a apuração no domingo, constatada nossa derrota por 49 votos de diferença. Na terça-feira à tarde, após a eleição, recebi um telefonema do meu amigo Ladim (que acompanhou Darcy por todo este tempo), me informando que ele havia piorado muito naquele dia e que seu estado era crítico. Perguntei se ele já sabia do resultado da eleição, Ladim respondeu afirmativamente. Especulei com Ladim sobre se a recaída tinha a ver com a notícia da derrota. Ladim se calou. Dessa recaída Darcy não voltou mais. Ainda resistiu 16 dias (de 08 a 23 de agosto).

Quanto a você, caro leitor, não sei o que pensa sobre este episódio mas eu, que acompanhei de perto a angústia de Capistrano por não poder participar da campanha – sabendo que os adversários estavam explorando sua doença e não poder fazer nada -, que convivi com ele estes últimos 20 anos, sei o imenso valor e a importância que ele dava para a Administração de Diamantino, não tenho duvidas em afirmar que a notícia da derrota causou nele um profundo choque emocional que pode ter sido determinante para a piora de seu estado de saúde, de onde não mais voltou. (Parabéns aos vermes de esgoto! Quero que levem com vocês este remorso como sombra inseparável no resto de seus dias pobres, vazios e mesquinhos.)

Darcy era assim, emotivo, singelo, coaração bom, “sangue bom”. Por isso era querido pelo povo simples de sua cidade. Era com essa gente que ele se identificava, se sentia bem. Nunca vi Capistrano pronunciar pensamentos negativos, nunca reclamava de nada. Era metódico e sistemático; na dúvida, preferia o silêncio. Era um sujeito compenetrado e determinado em seus objetivos, tanto que mesmo com 50 anos de idade e diabético, encarou um curso de Direito e se formou advogado – coisa difícil de se ver até nos jovens de hoje. Era principalmente um político nato, porém cercado de limites éticos e fazia de tudo para colocar estes limites a serviço da política. Prova disso são inúmeras calúnias que sofreu quando deixou a prefeitura em 1988 e que o tempo se encarregou de provar que eram mentiras: enquanto a maioria dos prefeitos que o sucederam deixaram o poder como donos de fazendas, gado, imóveis na capital e nas prósperas cidade vizinhas ( é, não investiram em Diamantino, não!), Darcy deixou para os filhos somente o patrimônio herdado do pai.

Uma grande perda humana Uma irreparável perda política. Um rico e importante pedaço de Diamantino que se vai...

Adeus meu amigo, meu irmão. Até breve! Seu sentimento político não acabou, se fortaleceu!

Lúcio Barboza



5 comentários:

  1. Eu ja era admirador do Lúcio por seu perfil politico e humano, e agora sei que não estava errado em te-lo como exemplo de pessoa. Que essas palavras ecoem na mente das pessoas desse município , que a ida do Darcy para o mundo espiritual não seja em vão, a luta continua e cada vez com mais força. A família Capistrano e por que não dizer a familia Diamantinense meu pesar e minhas condolências.

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  2. Perfeito não precisou citar mais nada neste comentário, pois a parte principal você falou tudo quando se referiu a sujeira que fizeram com um ser humano passando por uma enfermidade; foi PODRE! VERGONHOSO! Ainda me colocam uma nota em um desses site de bisbilhoteiros, falando sobre o velório; isso no meio da tarde de hoje! Á vocês que desejaram o pior aguarde o que tem por vir!!
    Força Diamantino!!!

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  3. Lúcio muito lindo o que você escreveu, nós ficamos muito gratos por termos amigo como você, e principalmente feliz por ainda existir jornalista como você(hoje posso dizer que são poucos),ontem e hoje foram dias horríveis para família Capistrano, família 12, mais Deus sabe o que faz, e aqueles que tanto torceram pra que isso acontecesse, são pessoas baixas, sem caráter o que é deles estão guardado, e é por Deus, porque o que desejaram para meu tio nós não desejamos as mesmas coisas, porque temos caráter, dignidade, respeito por qualquer pessoa (mesmo pelos mais desprezível), acreditamos na LEI DE DEUS, porque a LEI DOS HOMENS eles se corrompe.
    Muito obrigada Lúcio por fazer parte do nosso ciclos de amigos e muito obrigado a todos que rezarão ou orarão por tio Darcy, o meu muito obrigada

    Paula Capistrano

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  4. Concordo plenamente com a fala de Lúcio Barbosa, porque tambem presenciei um pouco dessa historia, fui funcionaria de Darcy e todas vida foi tratada com humanismo e afeto q ele mostrava com todos os funcinarios.Se tivesse ai lutava tbem com todas as minhas força...

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  5. concordo plenamente, pois vivenciei como funcionária, era querido por todos, o respeito era reciproco e amigo de todos.É triste saber a politica suja e desumano ,passa por cima do valor ético, até acabar com vida de uma pessoa.So posso afirmar q Deus é maior de tudo, tudo q faz aqui paga aqui tbem.Todos estao de passagem na terra. Lúcio esta de parabens com sua fala, temos que encarrar e mostar a realidade.

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