sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Cambaxirra cubana

Yoani Sánchez na chegada ao Aeroporto de Recife/PE. Horda de manifestantes pró-Fidel agrediram a blogueira cubana em sua primeira viagem internacional.


Ninguém é obrigado a gostar ou apoiar Yoani Sánchez, mas a turba brasileira pró-Fidel protagonizou exemplo de incivilidade.
22/02/2013, 20h21- Atualizado em 22/02/2013, 21h04 
 
 
Quando eu era criança, minha avó sempre fazia questão de revelar suas superstições. Uma delas versava sobre a cambaxirra, uma pequena ave acastanhada e bastante corajosa, tanto que quase não guarda distância dos seres humanos. Típica do Brasil e da Bolívia, ela também é conhecida, em determinadas regiões, como garrinchinha e carriça. Pois bem, dizia a advertência da minha avó: “Nunca jogue pedra na cambaxirra, porque se você acertar, todas suas roupas amanhecerão rasgadas”.
 
Estupefato, assisti na última semana as ridículas manifestações de ignorância e incivilidade de supostos manifestantes brasileiros pró-Fidel contra a blogueira cubana Yoani Sánchez em sua visita ao nosso país. Ignóbeis do que seja, de fato, um ambiente democrático, não ficaram satisfeitos com cartazes mal escritos e gritos de ordem mal falados, bem próprios de quem tem ralo domínio do idioma pátrio. Partiram para agressões físicas, esfregando dólares falsos em sua cara e puxando suas longas madeixas.
 
Em Feira de Santana, na Bahia, aos berros, com grosseria e violência, “uma milícia de talibãs tropicais” (como bem classificou o jornalista Nelson Motta no artigo Novela Cubana) impediu a exibição do documentário “Conexão Cuba-Honduras”, do diretor Dado Galvão e que tem Yoani como uma das principais entrevistadas. A barbárie se repetiu nas outras cidades visitadas por Sánchez: Salvador, Recife, Brasília e São Paulo. Por onde passou, a “cambaxirra cubana” foi alvo de uma saraivada de pedras arremessadas por hordas esquisitas. “Queria que um deles, à queima-roupa, respondesse algumas perguntas sobre História e Geografia das Américas”, pediu Maria Helena Rubinato Rodrigues em seu excelente artigo Desordem e Retrocesso.
 
Será que esses “manifestantes espontâneos” (faz-me rir!) desejam um Fidel tupiniquim pra chamar de seu? Faz parte da “causa” ver, um dia, o Brasil se tornar uma Cuba, ilha isolada, tirânica e desplugada do mundo contemporâneo? Ou essa já é a realidade dessa “turma”, cordiais defensores de um (des)governo corrupto e quadrilheiro? Volto à reflexão de Nelson Motta em seu artigo: “A maior fragilidade da democracia é poder ser usada livremente pelos que querem destruí-la”.
 
As barbáries brasileiras contra a blogueira cubana ganharam manchetes no mundo inteiro. Centenas de artigos como este e os supramencionados se multiplicam nas páginas de jornais, revistas, portais e nas redes sociais. Não são “ataques orquestrados pela mídia” ou “golpismo das elites”, como certo alguém gosta de bradar. Na verdade, trata-se de vergonha por tamanha estupidez. Vergonha na cara, ainda que artigo em escassez, jamais deixará de ser termômetro de bom senso.
 
Não poderia deixar de citar a conclusão do jornalista Sandro Vaia em seu brilhante artigo Democracia: Agite Antes de Usar: “Ninguém é obrigado a gostar de Yoani, como ninguém pode ser proibido de admirar e cultuar ditaduras. Infelizmente, a história da humanidade é recheada de massas ululantes que seguem ditadores e homens providenciais de camisas verdes, negras, pardas, boinas vermelhas e uniformes verdes-oliva. O fascínio pela servidão voluntária é uma das características mais degradantes do ser humano”.
 
A superstição da minha avó revelou-se factível. Ao atirar suas pedras acéfalas na “cambaxirra cubana”, a intrépida trupe de radicais brasileiros amanheceu com a roupagem rasgada, famosos internacionalmente pelo desrespeito ao ambiente democrático e pela maltrapilha cultura. Não há “militância política” ou “causa partidária” que possa justificar a ausência de educação, quiçá a violência. Yoani Sánchez seguirá sua jornada pelo mundo, ainda mais forte, “cambaxirra” a piar contra as mazelas de sua Cuba. Os incivilizados de cá seguirão viciados em cartilhas discursistas e tostões apaniguadores. Nada surpreendente para o país da corrupção institucionalizada e da impunidade desavergonhada.
 
Helder Caldeira
Escritor e Jornalista Político
Autor de "Águas Turvas" e "A 1ª Presidenta"
www.ipolitica.com.br - www.aguasturvas.com.br
Contato: helder@heldercaldeira.com.br
 
 

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