segunda-feira, 9 de maio de 2016

Professor articulador da aprendizagem: reflexões sobre a práxis pedagógica nas escolas organizadas em ciclos de formação humana

Por: ROSANGELA BORGES DA SILVA
A discussão sobre a escola organizada em ciclos de aprendizagem, onde não haja reprovação inicia-se em meados da década de 1910, com objetivos de diminuir os custos dos recursos financeiros que a reprovação ocasionava nos cofres públicos. Os debates se intensificam entre 1958 a 1984 onde além dos debates acontece as experiências pioneiras das políticas de não-reprovação. (MAINARDES, 2007)
Conforme Mainardes, 2007, em 1984 a escola organizada em ciclo ganha ênfase e é implantada na rede estadual de ensino de São Paulo a proposta implantada por decreto trazia no seu bojo a discussão sobre a política de não-reprovação, aliada ao objetivo de destinar  tempo maior para os alunos que apresentavam defasagem na sua aprendizagem. Ao garantir condições para que os alunos com dificuldades progredissem em seus estudos, acabaria por enfrentar os índices de reprovação e evasão.
Entre as vantagens da escola organizada em ciclo, conforme cita Mainardes, 2007, está o tempo de aprendizagem individual que na escola seriada era desconsiderado. Os alunos tem maior tempo de desenvolver suas habilidades e os profissionais da educação podem usar os avanços e entraves individuais para avançarem em suas concepções e práticas. Assim a escola em ciclos é considerada uma politica inovadora e positiva, por respeitar a individualidade e eliminar ou diminuir a reprovação.
Para Arroyo, 1999, não basta pensar na diminuição da reprovação ou a extinção do sistema seriado e sim analisar a concepção e a prática de educação básica que norteiam as ações das escolas e as tradições que estão enraizadas, principalmente, as concepções que se estabeleciam na escola seriada e que ainda influenciam as práticas como processo de seleção e exclusão dos que não acompanham o processo no ritmo considerado padrão.
"repensar a concepção e a prática de educação básica que estão presentes em nossa tradição e na estrutura seriada que as materializa" Arroyo (1999, p.11).
Arroyo, 1999, considera os ciclos como uma organização que respeita a temporalidade do desenvolvimento humano concebendo a educação como direito ao ser humano e a realização pessoal, não importa o ritmo para o desenvolvimento de habilidades, todos tem direito e são capazes de superar suas limitações, basta dispor de mediação, estímulos e de tempo.
Segundo Krug, 2001, os ciclos foram elaborados com a finalidade de adotar as questões da aprendizagem como um direito a cidadania e a democracia, considerando o ritmo e as fases de desenvolvimento das crianças, dessa forma cada ciclo corresponde a uma determinada fase de desenvolvimento:
1º Ciclo - Infância (6 a 8 anos);
2º Ciclo - Pré-adolescência (9 a 11 anos);
3º Ciclo - Adolescência (12 a 14 anos).
Com esse modelo ciclado a cultura, a realidade social e os conhecimentos prévios do aluno são determinantes para o desenvolvimento de estratégias que melhorem a aprendizagem que por sua vez é avaliada continuamente, possibilitando que pequenas conquistas e avanços sejam fatores estimulantes para a continuação do processo. A escola, nesse contexto, se transforme num ambiente afável, preparado, contente, agradável de ficar e de aprender, incentivando a permanência e a autoconfiança dos alunos.
Quando o educador conhece a realidade de seus alunos, ele tem condições de construir um projeto curricular que venha a contribuir na construção do conhecimento, procurando relacionar o novo, com o que o aluno já sabe. Somente assim a escola se torna palco de aprendizagem e passa a construir um projeto político pedagógico que seja inerente a formação de estudantes construtores de um novo mundo e de novas relações. (FREITAS, 2003)
Dessa forma os ciclos possibilitam o rompimento com a tradição da reprovação e a educação classificatória e torna-se caminho alternativo para educação inclusiva, como afirma Arroyo, 1999:
"Trabalhar em um determinado tempo-ciclo da formação humana passa a ser eixo dos profissionais da educação básica e de seu trabalho coletivo e individual" (Arroyo,1999, p.11).
Há de se considerar que o sistema de ciclos na educação contribuiu para a não-reprovação, os números representam isso. Mas a qualidade do ensino e a aceitação desse modelo são questionadas até mesmo pelas instituições de ensino. Há profissionais que não foram “seduzidos” e permanecem como defensores do sistema seriado e na prática há uma confusão nas metodologias e concepções, prevalecendo o caráter tradicionalismo onde os professores detêm o conhecimento e o aluno é subordinado a esse.
De acordo com Perrenoud, 2004, a prioridade da escola no sistema de ciclos é a possibilidade de atender as necessidades sociais de acordo com a condição social, sua função e saberes básicos, a escola não pode ser mera transmissora de conhecimentos pré-estabelecidos, mas deve atender as reais necessidades dos alunos.
Dessa forma Perrenoud, 2004, afirma ser necessário um apoio institucional e acompanhamento adequado com fins de que os professores sejam capazes de construir as competências exigida para o novo sistema. Cabe a formação inicial e também a formação continuada criar meios para desenvolver competências através de observação formativa, trabalho em equipe, dispositivos de diferenciação ou situações didáticas pertinentes à escola organizada em Ciclos de Formação Humana.
Com fins de substituir o sistema seriado de ensino com seu caráter seletivo e classificatório o Estado do Mato Grosso no ano de 1998 passa a discutir a possibilidade de se implantar o CBA (Ciclo Básico de Aprendizagem) para amenizar o fracasso escolar e minimizar a reprovação e a evasão. (MATO GROSSO, 2001)
A estratégia do Ciclo de Formação no estado do Mato Grosso foi apresentada como proposta de politica educacional em 1999, com a justificativa de se estabelecer um novo paradigma de escola e educação que atenda as reais necessidades da população contemplando as novas relações entre desenvolvimento e democracia atendendo a indigência da atual conjuntura político-econômico-social.
Assim a partir de 2000 a escola organizada em Ciclos de Formação Humana é implantada no estado do Mato Grosso buscando atender os objetivos de reduzir as diferenças sociais e melhorar a qualidade de vida da população, através da concepção de inclusão que permeiam os ciclos de formação humana.
O Ensino Fundamental passa a ter nove anos, sendo três ciclos composto, de três anos cada um. Concentrando maior empenho nos primeiros anos escolares, pois, nesta proposta são entendidos como anos decisivos para garantir ao aluno o sucesso escolar.
A proposta política de organização escolar por Ciclos de Formação, elaborado pela Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso, é sustentada em discussões e concepções teóricas sobre os processos de democratização, acesso e permanência, da formação escolar e social do aluno da rede pública. (MATO GROSSO, 2001)
Esta organização permite que os alunos dentro de um mesmo patamar de idade tenham mais facilidade na socialização e na construção de suas identidades, bem como nos avanços do ensino-aprendizagem, visto que pela própria natureza humana são considerados interesses, curiosidades e desejos próprios de cada ciclo de vida.
“É preciso considerar as dificuldades que enfrentam o que esperam da escola, em que acreditam suas crenças e esperanças seus valores morais/culturais, além de perceber os modos como eles se relacionam como raciocinam, como elaboram hipóteses, selecionaram e organizaram as informações, as idéias, como aprendem, enfim, como constroem o conhecimento.” (MATO GROSSO, 2001 p. 87)
Freitas, 2003, explica que o ciclo segue uma expectativa de formação global do individuo social, valoriza as individualidades e o tempo de cada um considerando o ritmo de aprendizagem diferenciado no processo educativo, afirma também ser função da escola propiciar meios significativos de aprendizagem, partindo da necessidade de cada sujeito e possibilitando nesse novo contexto a construção de autonomia e o processo de ensino-aprendizagem partindo da realidade em que o educando está inserido.
Desta forma, o ponto de partida para a descrição da lógica e que o ciclo traz para a escola, é que ela demarca o rompimento da seriação pela doação de um novo articulador para os tempos e espaços da escola, baseando no desenvolvimento da criança e em suas vivências.
A aprendizagem na escola organizada em Ciclos de Formação Humana é compreendida conforme as fases do desenvolvimento da criança, e entende-se que existem alunos que estão na sala de aula e precisam de atendimento diferenciado para o seu desenvolvimento cognitivo e cultural, num modelo de não-reprovação inclusivo.
Assim para possibilitar que os alunos com dificuldades de aprendizagem consigam adquirir as habilidades inerentes a sua fase/ciclo, na proposta da Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso é criada a função de Professor Articulador, conhecidos em outras organizações escolares como de Professor Itinerante ou Professor da Sala de Apoio a Aprendizagem.
O projeto da sala de articulação não possui turma definida. Através de seleção se compõe grupos com diferentes dificuldades acentuadas de aprendizagem que necessita de atendimento pedagógico diferenciado para que habilidades sejam desenvolvidas e o aluno seja incluso no processo formativo do ciclo em que se encontra. (MATO GROSSO, 2001)
Cabe ressaltar que a Necessidade de Aprendizagem está ligada ás aprendizagens que não foram adquiridas pelos alunos, e que precisarão quando forem construir novos conhecimentos, é este o trabalho pedagógico do Professor Articulador que atenderá os alunos em suas necessidades de aprendizagens, compreendendo que a aprendizagem escolar assegure condições adequadas para o sucesso do processo.
“[...] não se trata de uma aula de reforço, mas de uma aula, onde tanto se pode revisar ou construir novos conhecimentos, como desencadear debates, trabalhos em grupos e outras atividades que se caracterizem como as mais prazerosas possíveis”.  (KRUG, 2001, p.78)
Desta forma compreende-se que o Professor Articulador, ao atender diretamente os alunos nas suas necessidades de aprendizagens, estará abrindo possibilidades ao aluno de uma trajetória que permita a eles alcançar novos conhecimentos. A perspectiva é oferecer ao aluno a oportunidade de ser atendido nos momentos de maiores necessidades de aprendizagem.
Para ser Articulador do Ciclo de Formação Humana, faz-se necessário estar pautado por algumas incumbências imprescindíveis para o bom andamento do projeto de ensino-aprendizagem da escola. Freire, 1996, afirma que tratar o ato educativo como puro treinamento técnico é não dar o real valor ao exercício educativo, que é o seu caráter formador. Sendo assim é necessário definir a função do articulador.
Conforme com a Portaria nº 308/2012, entre outras funções cabe ao articulador: Receber do professor regente o relatório individual dos alunos a serem atendidos pelo projeto de articulação, identificando o perfil de aprendizagem e considerando o estágio de desenvolvimento de cada aluno; Construir com o professor regente um plano de intervenção pedagógica que contemple a especificidade de cada aluno, identificando estratégias eficientes para potencializar as aprendizagens nas diferentes áreas do conhecimento; Investigar/avaliar e registrar continuamente as medidas adotadas durante os processos de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos atendidos; Encaminhar ao professor regente o relatório descritivo das situações de aprendizagens dos alunos atendidos, relatando as medidas adotadas, destacando os avanços no processo e os desafios de aprendizagens superados; No final, emitir outro relatório descritivo apontando o perfil de aprendizagem adquirido pelos alunos e as medidas que foram adotadas de forma eficientes, que resultaram na superação dos desafios inicialmente apresentados.
Com todas estas funções administrativas é importante que o Professor Articulador desenvolva sua prática pedagógica consciente que contribua com a formação integral do aluno, estabelecendo um rol de conhecimentos que leve o educando a compreender a sociedade a qual pertence, e conseqüentemente possa atuar nela democraticamente, buscando melhorias sociais quando necessário. 
Referências
ARROYO, M. G. "Ciclos de Desenvolvimento Humano e Formação de Educadores. Educação e Sociedade, Campinas, n. 68, p. 143-162, 1999.
FONSECA, J. J. S. Metodologia da pesquisa científica. Fortaleza: UEC, 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 34 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura).
FREITAS, Luiz Carlos de. Ciclos, Seriação e Avaliação: confronto de lógicas. 1ª ed. São Paulo: Moderna, 2003. 
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
GOLDENBERG, M. A arte de pesquisar. Rio de Janeiro: Record, 1997.
KRUG, Andréa. Ciclos de Formação: uma proposta transformadora. Porto Alegre: Mediação. 2001.
MAINARDES, Jefferson. Reinterpretando os ciclos de aprendizagem - São Paulo: Cortez, 2007.
MATO GROSSO, Secretaria de Estado de Educação. Escola Ciclada de Mato Grosso: novos tempos e espaços para ensinar – aprender a sentir, ser e fazer. 2ª edição. Cuiabá: Seduc, 2001.
PERRENOUD, Philippe. A prática Reflexiva no Oficio do Professor. Porto Alegre, Artmed, 2004.
SEDUC/MT. Secretaria de Educação do Mato Grosso. Portaria Nº 306/2012


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